sexta-feira, 26 de março de 2004

Apgar

Chegou, talvez, a hora de soltar amarras. O barco está há demasiado tempo ancorado no cais, e (não tenho a certeza, mas) penso que as âncoras também ganham ferrugem...
Os barcos foram feitos para navegar, as âncoras para se fixarem: um verdadeiro contra-senso(?) se pensarmos que a âncora não tem grande utilidade sem o barco.

Na verdade era melhor zarpar...
Aquela coisa chamada golpe de misericórdia. Porque é verdade que já nada voltará a ser como era.
E dói muito pensar assim, mas a minha cabeça e o meu coração teimam em separar-se, o que só aumenta o sofrimento. Talvez fosse melhor cortar tudo de uma vez, acabar com as ligações, desbridar de uma vez por todas esta ferida que não cicatriza nem por nada, parece é que lentamente está a crescer, a infectar-se, a tomar conta de tudo o que ainda era são nos meus sentimentos.
Racionalmente sei que tenho que partir, deixar o porto, mas o meu coração agarra-se desesperadamente à intensidade das coisas que viveu e não cede... E visto daqui parece-me não uma âncora, mas um peixe fora de água...
Ou um recém nascido como o que vi hoje, que não se adaptou à vida cá fora e ficou cianosado, nauseado, com um gemido constante sem força para se transformar em choro...

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